Minha relação com Star Trek e o personagem Spock está nas
lembranças da primeira infância, no início dos anos 1970, quando meu pai
assistia à série numa TV preto e branco, e eu ficava fascinado com a Enterprise
– cujas naceles eu comparava a duas lanternas – e com o homem de orelhas
pontudas, sempre sério, que “quase” assustava. Mas a paixão arrebatadora veio
em 1982, quando eu tinha 12 anos e a Band (então TV Bandeirantes) reprisou a
série completa que eu vi/revi umas cinco vezes. Lembro que havia um boato de
que o Spock tinha morrido, uns achavam que era o ator, mas entendi quando vi o
longa-metragem Star Trek II no cinema e, no final, provavelmente com os olhos
molhados, acompanhei a comovente cena em que o vulcano dá a vida para salvar a
tripulação da Enterprise.
Felizmente Spock ressuscitaria no filme seguinte, onde o ator comprovava que
estava mais vivo do que nunca, já que magistralmente dirigiu esse episódio que,
pra mim, foi o mais marcante e dramático de todos. Depois veio ST IV, também
dirigido por Nimoy e curiosamente o mais hilário dentre os longa-metragens da
franquia. Ator e personagem ainda apareceram em Star Trek V e VI, em alguns
episódios da Nova Geração, e, finalmente, nos dois últimos filmes, que
reinicializaram a aventura com roteiros descontextualizados do espírito da
série original, mas que valeram ingressos por poucas razões, entre elas a
chance de ver pelas últimas vezes um dos ou talvez o personagem mais querido do
meu universo fantástico.
Também li quadrinhos (na infância, aqueles da Gold Key publicados por aqui pela
Ebal e pela Abril, sobre os quais pretendo escrever um dia, pois entre muitas
histórias sem pé nem cabeça havia algumas ótimas) e desenhei-os. Isso mesmo,
aos 12 e 13 anos de idade eu produzi as minhas próprias histórias em quadrinhos
de Jornada, com desenhos toscos que eu fazia direto com caneta preta e coloria
com lápis de cor; é verdade que eu já tinha feito uma ou duas HQ do Superman
antes, e outras mais autorais, mas foi ao universo de Jornada que eu me
debrucei criando e produzindo arte, brincadeiras que hoje chamam de fancomics.
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| Uma das muitas páginas de quadrinhos de Jornada que rabisquei na infância |
Entre os personagens, claro, minha paixão dividia-se entre
Kirk e Spock; mas também lembro que desde criança via com certa crítica o
exagero de amores do capitão gostosão, que em certas fases da série
“apaixonava-se” de novo a cada episódio, a cada novo mundo que a Enterprise
orbitava naquela galáxia fantasiosa, metáfora da própria Terra e da história da
humanidade. Já Spock, sempre resolvendo os problemas pela lógica, era o
co-protagonista e algumas vezes até mesmo o anti-herói para os amores do
capitão, como no premiado “A cidade à beira da eternidade”. Com o tempo apareceu a paixão platônica da
enfermeira Chapel, interpretada por ninguém menos que a esposa do
criador/produtor da série, Majel Barrett; a questão do pon-far, o “cio’ dos
vulcanos; e a paixão descontrolada que ele viveu no planeta Sarpeidon, que deu
origem a um dos mais aclamados livros do universo ficcional de Jornada, Portal do Tempo ou, numa tradução mais
coerente, O filho de ontem, de Ann C.
Crispin. Também houveram na série clássica outros conflitos emocionais, e a
relação delicada com o pai Sarek; ou seja, Spock já era, na série que terminou
em 1969, sem dúvida nenhuma o personagem mais rico em termos de construção da
história pessoal e da personalidade, e na minha opinião o mais dramático, até
mesmo pela sua condição de “alienígena” dentro da nave tripulada por humanos
terráqueos ou descendentes.
Mais recentemente comecei a assistir alguns fan-filmes do universo de Jornada,
e na imaginação criei minha própria série de animação, com os personagens
clássicos e inserida num período de tempo que nem a TV nem o cinema mostraram.
Não foi a primeira vez que imaginei continuações complexas dessa cronologia, quando
jovem já tinha sonhado (e começado a esboçar) uma série para quadrinhos (e/ou
livro) sobre outro período; mas dessa vez a série de animação começou a se
materializar, digo, digitalizar, porque comecei a aprender a usar programas de modelagem
e animação em 3D, e troquei correspondência com outros aficcionados,
especialmente o Raul Mamoru, que modelou naves fantásticas e de imediato
começou a colaborar. Virou um pré-projeto, com algumas cenas espaciais em
desenvolvimento e o primeiro personagem em estudo, em desenhos 2d e também 3d
(a série misturará as duas técnicas), e adivinhem qual é?! O Capitão Spock!
Sim, porque o recorte temporal da minha ficção rodenberryana é justamente o
período em que Spock assume a cadeira de comando em definitivo (que será
desfeito depois rs) durante o afastamento de Kirk. Agora, nem sei se é muito
cedo pra divulgar isso, ou muito tarde, já que o maior homenageado, Nimoy, não
ficará mais sabendo.
Uma idéia maluca que me ocorreu foi entrar em contato com o
herói de carne e osso, que tinha um tuíter oficial, e quem sabe ele não toparia
apoiar e, quiçá oxalá talvez acaso porventura sepá não topasse fazer a dublagem... hehehe. Não
custa sonhar, né, mas... MAS! eu, como muitos nerds, até hoje tímido demais
para iniciar esses contatos humanos – ou meio-humanos – mais emocionantes com
ídolos, como era com algumas das mais intensas paixões da juventude, nunca
escrevi a mensagem. Além disso, devido a outras preocupações o meu projeto
voltou pra gaveta, ou pro HD reserva ainda em 2013.
De qualquer forma, escrevo e publico hoje esse texto, mais informal e pessoal
do que um artigo, quase um desabafo, pra falar um pouco do quanto Jornada nas
Estrelas e especialmente a figura de Leonard Nimoy influenciaram-me e
influenciam... e certamente continuarei aprendendo com o artista; e com o
personagem, com quem ainda posso trocar experiências, já que esse continuará
vivo pra sempre! É curioso que há poucos dias eu pensava nos meus ídolos (do
mundo artístico em geral) que ainda estavam vivos, e os maiores deles provavelmente
são Roger Waters na música, Alan Moore nos quadrinhos e... era Leonard Nimoy,
mais do que como ator, como representante de todo o universo da ficção
científica filmada, pelo conjunto de tudo o que fez, como fez e como recebi sua
atuação. Vida longa e próspera à memória de Leonard, e torço pra que ao menos
um pouco daquele universo humano mais
humano, justo e emocionante, que ele ajudou a criar com os também
memoráveis Gene Rodenberry, Majel Barrett, DeForest Kelley, James Dohan, e ainda entre nós
William Shatner, Nichelle Nichols, George Takei, Walter Koenig e
alguns ótimos escritores (melhor limitar essa lista) venha a se tornar
realidade!

Além dos exemplos que comentei, na minha arte há muitas
influências do universo trek: na adolescência, desenhei HQs de aventuras
espaciais publicadas no fanzine Buraco Negro, e mais tarde comecei a escrever
romances de FC, um deles muito inspirado na idéia da exploração espacial como é
apresentada por Rodenberry; mas no universo ficcional ao qual me dedico
atualmente, do jovem índio urbano Tupinanquim, existem algumas referências que foram
inevitáveis: dois dos personagens principais, que também são, de certa forma,
alter-egos meus, são fãs de Jornada: o próprio Tupinanquim e também a cientista
da turma, Beta. Na época que eu fazia cartões e adesivos do Tupi pra vender nas
ruas, um cartão de natal já trazia a imagem do curumim brincando com uma nave
no estilo ST, e este cartão depois ganhou uma versão animada; mas talvez exista
um legado, ou ao menos uma característica análoga, no Tupinanquim, do próprio
personagem Spock: o curumim vive numa cidade e estuda numa escola com crianças
que não são indígenas, não conhecem a cultura de seu povo ancestral, as tradições
e conhecimentos que seus pais juraram preservar quando foram morar na chamada “civilização”,
e esse dualismo gera conflitos em certas histórias, da mesma forma que esses
conflitos aconteciam na vida do vulcano da ficção e, de certa forma, na vida do
terráqueo Leonard Nimoy, autor de duas biografias ambíguas, opostas e
complementares, onde ele disserta sua relação intrínseca com o personagem: Eu não
sou Spock (1975) e Eu sou Spock (1995). Bom, só me resta concluir o texto
mantendo a informalidade pra tentar, mais uma vez, resumir minha admiração: ele
era o cara!
Erickson Artmann, 28 de fevereiro de 2015

